Hoje apetece-me falar das olaias!

 

Que melhor árvore para se falar aqui no blog «Flores da Vida»?

Depois de caminhadas seguidas entre elas e hoje numa caminhada de três horas, comecei a pensar que vos devia falar aqui destas belas árvores - as olaias.

 

As olaias são árvores que eu só conheci tarde porque, lá pelas minhas Montanhas Lindas, não as havia.

Em tempos, eu corria sob as copas das árvores e, debaixo dos meus ténis, o trilho era de terra. Eu subia e descia aqueles trilhos com grande facilidade e os meus ténis pareciam ser movidos a rockets. O cheiro do arvoredo, das ervas, dos matos e da humidade da terra, era agradável. A frescura de dias de final de inverno e início da Primavera impulsionava-me. Mais uma volta ao circuito, em plena corrida. Era assim sempre. Eu corria para a frente e as árvores dirigiam-se para a minha rectaguarda em grande velocidade. Num ápice, eu voltava a passar no sítio rosado. À esquerda árvores e matagal, na minha vertical olaias e outras árvores, à direita ervas e árvores mas, alcandorada sobre as ervas e encostada ao muro, observando tudo como uma deusa, uma bela olaia toda florida. Para mim, as olaias, eram apenas árvores com flores e nada mais.

 

 

Uma olaia florida em Queluz

 

As outras olaias misturavam-se com as outras árvores e, aquele pedacinho de mundo, até me parecia uma salada de árvores a embelezar um qualquer outro Edem. Em várias passagens, pelos tempos floridos, todos os anos olhava de soslaio aquelas belas olaias. A pequena aragem, às vezes, tornava-se mais viva e começava a pôr-se um ventinho. As ramas das árvores dançavam à minha passagem e os duendes lançavam pétalas das olaias sobre a minha cabeça, mas eu não ligava a nada. Só queria movimentar as pernas. A tudo olhava mas a nada ligava. Nem às olaias! 35 minutos para ir de casa até lá em corrida de cross, mais 3 voltas ao circuito e outros 35 minutos para o regresso. Era uma estafa alegre!

 

Assim foi durante anos. Mas um dia, notei que os ténis começavam a ter as solas feitas com chumbo. Pelo menos assim parecia. Os 35 minutos para cada lado foram substituídos pelo carro, o circuito começou a parecer bem maior e a corrida transformou-se em caminhada acelerada até à aproximação do primeiro cansaço, quando a desaceleração se começa a transformar em caminhada de observação.

Assim, com maior pausa na passada e mais acuidade na observação de tudo o que me rodeava, fui levado a observar, com mais tempo, a beleza envolvente.

 

 

A mesma olaia florida em Queluz

 

Assim era, até que um dia parei para olhar bem olhado o que me rodeava. Eu parei! E parei num dia lindo depois do Senhor da Esfera me atormentar com a coluna. A minha coluna permitia-me esquecer das minhas pernas e observar tudo com mais cuidado. Num belo dia, voltei ao circuito com saudades, caminhando lentamente. Havia uma aragem que foi crescendo e se transformara num vento ligeiro. Eu olhava as olaias floridas e comecei a perceber que o mundo se tornava triste, mas reconhecia que ele era ainda belo. Então, pensando como não damos valor às coisas belas, porque não podemos alcançar tudo, comecei a observar melhor as olaias. Algo começou a cair sobre a minha cabeça, nessa paragem. O trilho de terra tinha-se transformado, em minutos, num tapete rosado. Eu observava a bela olaia velha e notei que ela me observava a mim com o mesmo afinco.

 

Aproximei-me da olaia, toquei-lhe o tronco velho e ficamos assim juntos por bons e largos momentos. Olhei em volta e reparei nas outras olaias. Do silêncio da mata, do meio delas, saíram vozes amigas. Eram vozes dos duendes.

Nessas vozes uma se destacou:

«Nunca esqueças os carvalhos Ventor, mas vai reparando também em nós e vê como nos sentimos bem entre as olaias. Repara como a beleza é multifacetada, Ventor! Observa bem estas olaias e, um dia irás recordá-las como hoje recordas os carvalhos da tua Assureira»!

 

Os duendes conversavam comigo e sobre mim continuavam a cair as pétalas das olaias. O chão que pisava começara a transformar-se. Até parecia que um tapente quase rosado fora estendido à minha frente.

Antes tudo era lindo! As minhas pernas eram lindas, o meu coração e pulmões eram lindos e, até as olaias, a que eu não ligava, eram lindas, mas a pressa não me deixava olhá-las com olhos de ver. Hoje continuo por lá. As caminhadas são mais lentas, as belezas são as mesmas mas a atitude é outra. Agora, nos finais de inverno, início de primavera, eu com as olaias e as olaias comigo caminhamos, juntos, sob os auspícios de Apolo.

 

 

Uma das outras olaias em Queluz

 

Hoje recordei-me também que um dia, tive um sonho.

Sonhei que acompanhava Diana numa caçada aos veados. Ao encontrarmos o primeiro veado, Diana levanta o arco e coloca o veado na mira. Eu aproximei-me e com o meu arco toquei o de Diana pedindo-lhe para deixar o veado continuar a comer. O veado que víamos não era um veado mas sim o moleiro de Flora.

Flora não gostava do moleiro e roubava farinha para o incriminar. Chateou-se e transformou o moleiro num veado. 

Enquanto o moleiro (veado) nos contava a sua história, eu observava as belezas presentes e, hoje, recordo-me que as belas árvores floridas eram olaias.

Agora, eu e as olaias conversamos muito e, nas nossas conversas metem-se os meus belos amigos dos bosques - os pica-paus.

 

Apreciar as olaias floridas e ouvir o som dos pica-paus é mais uma das maravilhas que me rodeiam.

 

A olaia (Cercis siliquastrum) dizem que é originária da Judeia, embora ela exista em torno do Mediterrâneo. Dizem também que as suas flores são comestíveis e que foi numa olaia que Judas se enforcou depois de trair Cristo. Estaria essa olaia florida? Se estava terá sido uma boa opção!

 

Cliquem no link do início e fiquem a caminhar entre as olaias.

 

Em todo o mundo há flores lindas, como as minhas Flores de Inverno ou Flores da Vida mas, não ofuscam as flores das minhas Montanhas Lindas

sinto-me: caminhar sobre olais
música: Lady - Kenny Rogers
tags:
publicado por Ventor às 00:14